Pina Bausch é uma das mais importantes artistas e uma referência incontornável das artes, e mais especificamente da dança, do século XX e XXI. Depois de, com 17 anos, ter ido estudar dança para Nova Iorque, volta à Alemanha e após algum tempo é convidada para dirigir o Wuppertal Tanztheater.
O Teatro-Dança, género amplamente desenvolvido e divulgado por Pina Bausch a partir dos anos 70 tem referências anteriores e não podemos analisá-lo sem termos em conta as técnicas desenvolvidas por Laban, o seu discípulo Kurt Joss e até mesmo Bertold Brecht.
Laban usava o termo dança para descrever uma forma de arte independente de qualquer outra, baseada em formas dinâmicas e harmoniosas de movimento e percursos no espaço, o sistema criado por si desenvolvia-se através de improvisações de “Dança-Tom-Palavra” a partir das quais criava peças onde usava movimentos do quotidiano, de uma forma narrativa, cómica ou mais abstracta. Por seu lado Kurt Joss fazia uso do movimento combinado com a música, a voz, a técnica clássica misturada com a harmonia espacial e o movimento dinâmico de Laban, para criar acções dramáticas em que abordava temas sócio-políticos.
O Teatro Épico desenvolvido por Bertold Brecht não pode deixar de ser uma referência para a dança alemã, com a criação do distaciamento, o encadeamento das cenas numa estrutura não linear, os momentos cómicos inesperados e o despertar do espectador para uma consciência social. As combinações de palavras com acções corporais como um gesto socialmente significante, propostas por Brecht, como um desafio ao espectador do reconhecimento do quotidiano, não podem obviamente ser esquecidas.Os trabalhos desenvolvidos pelos artistas norte-americanos dos anos 60 são também um importante testemunho para o caminho traçado por Pina Bausch. Centrados nas relações humanas e movimentos das “pessoas comuns”, cruzando as diferentes formas de arte, vestidos naturalmente como no dia-a-dia, rejeitavam as técnicas da dança moderna e propunham uma separação entre a arte e a vida quotidiana, apontando deste modo a representação teatral como uma forma artificial.
Bausch parece fazer uso de todos estes movimentos e acontecimentos, tratando-os no entanto de uma forma bastante peculiar, favorecendo o processo sobre o produto. É-nos apresentado um caos generalizado mas com uma ordem própria, uma interacção aumentada, em espectáculos com um impacto visual e musical indiscutíveis, intercalados de cenas quase vazias e silenciosas, não rejeitando a grandiosidade teatral, numa estrutura fragmentária que faz uso de todas as artes disponíveis. Para este efeito concorrem ainda os elegantes e sumptuosos figurinos usados pelos bailarinos. O seu trabalho não parece querer estabelecer uma barreira entre a representação e a vida real. A técnica de dança clássica também não é deixada de lado embora seja usada de uma forma crítica e ao serviço da dramaturgia numa espécie de criação de linguagem própria, predominantemente gestual, que explora os sinais comuns, do quotidiano, dos rituais públicos e privados, carregando-os de significados de modo a serem transpostos para cena. Os movimentos do quotidiano representados em cena, para além da sua carga simbólica ganham também uma função estética sendo estruturados dentro de um vocabulário específico como são as técnicas de movimento ou a repetição. Esta é usada não só para criar um efeito visual, mas torna-se um método de expressão e de provocação de sentimentos. À medida que este gestos vão sendo repetidos, também o seu significado ou o impacto/sensações que provocam no público se podem ir alterando. Deste modo são representadas as experiências humanas, os sentimentos, a ternura e a agressão, permanecendo no entanto alguns dos traços característicos do expressionismo alemão como o grotesco ou a desfiguração.
Pina Bausch faz muito uso da voz, mais do que uma extensão esta é tratada como uma amplificação dos corpos, deitando por terra a divisão corpo/mente. Os movimentos não completam as palavras, o que tem de ser dito é dito, o que tem de ser dançado é dançado. À semelhança do que acontece com o movimento a repetição é usada nas palavras e também estas perdem o seu significado, transportando o espectador para outros terrenos e provocando um paralelo com a fisicalidade da dança, tornando-se um signo e criando caminhos para transformação e a procura de qualquer coisa.
Embora a coreógrafa não goste de assumir que existe “um método” nas suas criações, não podem deixar de ser observadas características comuns no processo de criação dos seus espectáculos. Pina Bausch parte das experiências e idiossincrasias de cada um dos seus bailarinos, apodera-se deles, das suas vidas, dos seus sentimentos, das suas visões do mundo, constituindo estes o material essencial dos seus espectáculos e o ponto de partida da criação. Através de verdadeiros inquéritos feitos aos intérpretes, que podem ir de 100 a 200 perguntas, é obtido e reunido metodicamente material que é posteriormente trabalhado e coreografado, o que permite uma riqueza e multiplicidade de referências que cruzam todas as fronteiras, tão típica do trabalho de Pina Bausch e que permite a criação de objectos artísticos que transportam consigo e que realizam em si aquilo que é a transformação da matéria discursiva.
Mesmo que o resultado final se afaste um pouco das propostas iniciais, o que por norma não acontece, o desenvolvimento do trabalho criativo, a forma como os elementos se vão integrando, apagando ou energizando constitui em si mesma o processo de criação, tornando-o um dos elementos fundamentais do seu trabalho. Com este material tão rico, as várias idades e nacionalidades dos bailarinos são um forte contributo, Pina Bausch consegue quase fazer uma análise microscópica da condição humana, do que nos move, de seres humanos vivos, com medos, amor, tristeza e fúria. Tudo isto permite-lhe pôr em cena, como lhe chamou a jornalista Cristina Peres, “frescos” sobre a vida, e é o que torna os seus espectáculos tão especiais e únicos. Os seus bailarinos mostram-se a si mesmos, contam as sua próprias histórias, não as e um transeunte anónimo, ao mesmo tempo que experimentam uma divisão entre o seu corpo e um papel social. Através de movimentos, palavras e experiências passadas, o corpo torna-se quase um instrumento simbólico e social em constante transformação.
Deste modo Pina Bausch consegue apresentar-nos e de algum modo resumir de que matéria somos feitos, comunicar-nos o oculto e defender-se da solidão mostrando o que nela se encontra.
O Teatro-Dança, género amplamente desenvolvido e divulgado por Pina Bausch a partir dos anos 70 tem referências anteriores e não podemos analisá-lo sem termos em conta as técnicas desenvolvidas por Laban, o seu discípulo Kurt Joss e até mesmo Bertold Brecht.
Laban usava o termo dança para descrever uma forma de arte independente de qualquer outra, baseada em formas dinâmicas e harmoniosas de movimento e percursos no espaço, o sistema criado por si desenvolvia-se através de improvisações de “Dança-Tom-Palavra” a partir das quais criava peças onde usava movimentos do quotidiano, de uma forma narrativa, cómica ou mais abstracta. Por seu lado Kurt Joss fazia uso do movimento combinado com a música, a voz, a técnica clássica misturada com a harmonia espacial e o movimento dinâmico de Laban, para criar acções dramáticas em que abordava temas sócio-políticos.
O Teatro Épico desenvolvido por Bertold Brecht não pode deixar de ser uma referência para a dança alemã, com a criação do distaciamento, o encadeamento das cenas numa estrutura não linear, os momentos cómicos inesperados e o despertar do espectador para uma consciência social. As combinações de palavras com acções corporais como um gesto socialmente significante, propostas por Brecht, como um desafio ao espectador do reconhecimento do quotidiano, não podem obviamente ser esquecidas.Os trabalhos desenvolvidos pelos artistas norte-americanos dos anos 60 são também um importante testemunho para o caminho traçado por Pina Bausch. Centrados nas relações humanas e movimentos das “pessoas comuns”, cruzando as diferentes formas de arte, vestidos naturalmente como no dia-a-dia, rejeitavam as técnicas da dança moderna e propunham uma separação entre a arte e a vida quotidiana, apontando deste modo a representação teatral como uma forma artificial.
Bausch parece fazer uso de todos estes movimentos e acontecimentos, tratando-os no entanto de uma forma bastante peculiar, favorecendo o processo sobre o produto. É-nos apresentado um caos generalizado mas com uma ordem própria, uma interacção aumentada, em espectáculos com um impacto visual e musical indiscutíveis, intercalados de cenas quase vazias e silenciosas, não rejeitando a grandiosidade teatral, numa estrutura fragmentária que faz uso de todas as artes disponíveis. Para este efeito concorrem ainda os elegantes e sumptuosos figurinos usados pelos bailarinos. O seu trabalho não parece querer estabelecer uma barreira entre a representação e a vida real. A técnica de dança clássica também não é deixada de lado embora seja usada de uma forma crítica e ao serviço da dramaturgia numa espécie de criação de linguagem própria, predominantemente gestual, que explora os sinais comuns, do quotidiano, dos rituais públicos e privados, carregando-os de significados de modo a serem transpostos para cena. Os movimentos do quotidiano representados em cena, para além da sua carga simbólica ganham também uma função estética sendo estruturados dentro de um vocabulário específico como são as técnicas de movimento ou a repetição. Esta é usada não só para criar um efeito visual, mas torna-se um método de expressão e de provocação de sentimentos. À medida que este gestos vão sendo repetidos, também o seu significado ou o impacto/sensações que provocam no público se podem ir alterando. Deste modo são representadas as experiências humanas, os sentimentos, a ternura e a agressão, permanecendo no entanto alguns dos traços característicos do expressionismo alemão como o grotesco ou a desfiguração.
Pina Bausch faz muito uso da voz, mais do que uma extensão esta é tratada como uma amplificação dos corpos, deitando por terra a divisão corpo/mente. Os movimentos não completam as palavras, o que tem de ser dito é dito, o que tem de ser dançado é dançado. À semelhança do que acontece com o movimento a repetição é usada nas palavras e também estas perdem o seu significado, transportando o espectador para outros terrenos e provocando um paralelo com a fisicalidade da dança, tornando-se um signo e criando caminhos para transformação e a procura de qualquer coisa.
Embora a coreógrafa não goste de assumir que existe “um método” nas suas criações, não podem deixar de ser observadas características comuns no processo de criação dos seus espectáculos. Pina Bausch parte das experiências e idiossincrasias de cada um dos seus bailarinos, apodera-se deles, das suas vidas, dos seus sentimentos, das suas visões do mundo, constituindo estes o material essencial dos seus espectáculos e o ponto de partida da criação. Através de verdadeiros inquéritos feitos aos intérpretes, que podem ir de 100 a 200 perguntas, é obtido e reunido metodicamente material que é posteriormente trabalhado e coreografado, o que permite uma riqueza e multiplicidade de referências que cruzam todas as fronteiras, tão típica do trabalho de Pina Bausch e que permite a criação de objectos artísticos que transportam consigo e que realizam em si aquilo que é a transformação da matéria discursiva.
Mesmo que o resultado final se afaste um pouco das propostas iniciais, o que por norma não acontece, o desenvolvimento do trabalho criativo, a forma como os elementos se vão integrando, apagando ou energizando constitui em si mesma o processo de criação, tornando-o um dos elementos fundamentais do seu trabalho. Com este material tão rico, as várias idades e nacionalidades dos bailarinos são um forte contributo, Pina Bausch consegue quase fazer uma análise microscópica da condição humana, do que nos move, de seres humanos vivos, com medos, amor, tristeza e fúria. Tudo isto permite-lhe pôr em cena, como lhe chamou a jornalista Cristina Peres, “frescos” sobre a vida, e é o que torna os seus espectáculos tão especiais e únicos. Os seus bailarinos mostram-se a si mesmos, contam as sua próprias histórias, não as e um transeunte anónimo, ao mesmo tempo que experimentam uma divisão entre o seu corpo e um papel social. Através de movimentos, palavras e experiências passadas, o corpo torna-se quase um instrumento simbólico e social em constante transformação.
Deste modo Pina Bausch consegue apresentar-nos e de algum modo resumir de que matéria somos feitos, comunicar-nos o oculto e defender-se da solidão mostrando o que nela se encontra.


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