segunda-feira, 25 de maio de 2009

3 Obras em Reflexão

Obras Escolhidas

#1 - “One and three Chairs”, Joseph Kosuth, 1965 – 66
#2 – “Untitled Film Still, no.92”, Cindy Sherman, 1981
#3 – “Untitled #305”, Cindy Sherman, 1994


Os acontecimentos vividos no último século, os novos meios de comunicação e tecnologias, desencadearam uma série de questionamentos no homem sobre si, qual o seu papel na sociedade e sobre o mundo que o rodeia. A Arte Contemporânea é o espelho disso mesmo, com os artistas a assumirem o protagonismo dessa reflexão e a procura de mudanças e de novos caminhos nas formas de criar. Esta pesquisa abre um leque de infindáveis possibilidades de meios de abordagem, criação, técnicas, métodos, suportes e exemplo disso é a pluralidade de movimentos e formas artísticas presentes na Arte Contemporânea.
Todas estas novas correntes estéticas, como é comum quando existem rupturas de conceitos e de ideias pré-concebidas, suscitaram polémica e levantaram questões sobre o que é a arte e a legitimidade das obras. Naturalmente quando se reinventam e se exploram novos limites de criação é necessário reaprender e explorar novos pontos de vista, e há por isso ainda uma lenta aceitação por parte do grande público, provocada pelo deslocamento das linguagens artísticas contemporâneas, das fixadas anteriormente.
Da exaltação do virtuosismo da técnica, da arte demarcada pelos limites da moldura, da representação do belo, da elevação da arte e da celebração do único e do autêntico, passamos para uma série de inovações nas expressões artísticas que introduzem o ready-made, colagens, montagens, instalações, sons e imagens que recorrem a materiais e suportes mecânicos, que valorizam sobretudo a linguagem, o conceito, e o processo, a estrutura forma-conteúdo e que se posiciona no ground zero não querendo ser superior a ninguém, desmontando, desformatando e desconstruindo. É construída toda uma nova relação com a obra, os objectos, o espaço de exposição e mesmo até com o público, no que respeita ao seu posicionamento perante o que lhe é apresentado e assiste-se à apropriação de tudo o que nos rodeia como possível matéria de criação.
As três obras que escolhi, para além de me identificar de algum modo com elas estética ou conceptualmente, penso que espelham essa pluralidade de géneros e de preocupações / opções artísticas dos artistas contemporâneos.


“One and three chairs”, Joseph Kosuth

Joseph Kosuth nascido em 1945 no Ohio (EUA) é um dos artistas de maior expressão da arte conceptual. Penso que a obra “One and Three chairs” nos dá um exemplo perfeito das linhas essenciais deste movimento que valoriza sobretudo as ideias e os conceitos, mais do que a própria materialização da obra, já que assenta na teorização dos conceitos e códigos linguísticos e de apreensão da realidade. Há no conceptualismo e esta obra não é excepção, uma estreita relação com o ready-made conferindo-lhe um traço característico desta forma artística: a apropriação do objecto físico relacionando-o com uma ideia, que introduz a noção não de objecto como forma de arte, mas de arte enquanto enunciação.
Existe claramente uma ligação neste trabalho de Joseph Kosuth entre a linguagem, a imagem e o objecto (a definição de cadeira do dicionário, a fotografia da cadeira, e a cadeira material), três modos distintos de captar a realidade dum ponto de vista frio e racional. Parece-me que este é um dos pontos-chave da Arte Conceptual, a anulação da ideia de que o acto criativo deve ser intuitivo e a adopção de uma postura não emocional, em que as obras têm sobretudo uma origem objectiva em detrimento do significado emotivo ou artístico. Joseph Kosuth dá-nos um exemplo disso quando usa uma definição do dicionário, precisa, fechada, directa e concreta. O uso neutro da fotografia concorre para o mesmo objectivo, e é um suporte extremamente usado pelos artistas conceptuais, no sentido em que é um meio e um processo mecânico oposto por exemplo à pintura muito mais ligada a técnicas manuais e a um entusiasmo criador.
O pensamento e os actos teóricos caracterizam o conceptualismo e as obras ainda que se traduzam num objecto físico e com características expositivas pretendem manifestar uma ideia.



“Untitled Film Still, no.92”, Cindy Sherman

Artista norte-americana nascida em 1954, Cindy Sherman usa maioritariamente o suporte fotográfico na sua obra, na qual são visíveis diversas fases no que respeita às temáticas e às linhas estéticas escolhidas.
“Untitled Film Still, no.92" faz parte de uma série de fotografias em que Sherman é simultaneamente criadora e intérprete das suas obras. A artista encena situações em que apresenta vários modelos e estereótipos femininos que nos remetem amiúde para personagens do cinema, produzindo no espectador um sentimento familiar, como se já as tivesse visto anteriormente, e em que aborda ideias e questões relacionadas com o papel da mulher contemporânea e como insidiosamente os padrões femininos se foram instalando na sociedade. As suas fotografias criam um equilíbrio entre aquela que será a mulher vivida, cuidada, bonita, glamorosa e de algum modo sensual com um ser desprotegido, violentado, com medos e angústias e simultaneamente sem espaço ou um lugar definido numa sociedade comandada por homens que transferem para si uma série de desejos e objectivos que não passam pela sua emancipação.
Em “Untitled Film Still, no.92", Cindy Sherman aborda também várias questões associadas à introdução do corpo na obra de arte e sobre os cânones da mulher. Fazendo uso do seu corpo para todas as fotografias, por oposição ao uso de corpos de manequins, sem imperfeições, com medidas standartizadas e ideias de beleza, a artista propõe que qualquer mulher pode ser um modelo, com as suas formas e particularidades.
Ao assumir estes personagens, sempre interpretados por Sherman, a artista cria uma ficção do seu “eu”, desconstroi-o, multiplica-o e expõe como a personalidade pode ser eminentemente uma questão imaginária e ambígua. Estas metamorfoses exploram o lado perverso do disfarce, da perda da identidade e propõem uma reflexão directa daquilo que se está a viver, de quem sou eu na cara ou no corpo de outra pessoa, numa estreita relação com a teatralidade, travestismo e noção de construção de personagem.
Ainda que as Fotografias de Sherman nesta série de trabalhos nos mostrem múltiplos personagens facilmente identificáveis em ambientes e situações reconhecíveis pelo espectador, nada têm que ver com a captação do acaso nem do quotidiano, mas são antes uma determinada premeditação das “cenas”, construídas e experimentadas, que convergem para a representação das ideias de Cindy, denunciando claramente na sua obra uma estrutura dramatúrgica Personagem / Contexto / Intenção.
Estão implícitas nas imagens uma variedade de acções e de ideias e estas são tratadas claramente como frames, incitando a criação de um “guião” na cabeça de quem as vê.
A fotografia é por excelência um meio eficaz na criação de condições para que este processo se dê, já que é um meio exclusivamente óptico de representação capaz de captar todas as variantes da visão humana, o que provoca no observador um sentimento de veracidade absoluta relativamente à imagem, que intelectualmente e instintivamente faz a sua associação a um imaginário. Este sentimento de verdade do espectador em relação à fotografia deve-se também ao facto de a vermos no momento presente como a representação ou indício de algo real acontecido no passado.
Nesta série de trabalhos Sherman toca num dos pontos fundamentais da Arte Contemporânea, quando faz uma abordagem social da mulher e das imagens de situações aparentemente reais, trazendo para o contexto expositivo a vida como potencial obra artística.




“Untitled #305”, Cindy Sherman

Nesta obra Cindy Sherman trata principalmente das questões do eu, do corpo e da sua representação, aliás um dos temas centrais da Arte Contemporânea. A ideia de teatralidade continua presente, assim como na sua obra anterior. A fotografia, um frame de uma acção pensada e encenada, a luz claramente a concorrer para a criação de ambientes e planos.
Em “Untitled #305”, a artista apresenta dois seres inanimados, sem vida, e coloca-os numa situação supostamente real e íntima, envolta num clima delicado, emotivo e de leveza que representa uma profunda contradição entre o corpo que sente, único, idiossincrático e lugar dos processos mais secretos, e entre os manequins, corpos inanimados numa suposta acção, híbridos, desprovidos de sentimentos, de personalidade, produtos de uma indústria e símbolos de uma cultura de massas.
Sherman explora a identidade e o indivíduo deslocando estes conceitos dos objectos a que pertencem: o corpo humano.
Este binómio vivo / morto acompanha a obra de vários autores e é uma das questões fulcrais do pensamento contemporâneo. A preocupação com o sujeito e o corpo, o primeiro inevitavelmente confinado aos limites físicos e finitos do último e a matéria que suporta a identidade como veículo, suporte e meio de expressão desta.
As noções de efémero e perpétuo são também trabalhadas nesta obra. Primeiro pela situação apresentada, a captação de um momento particular que vivido por dois indivíduos se tornaria único, especial e irrepetível nas sensações e formas de estar, mas que representado por dois manequins se transforma numa situação absolutamente reproduzível bastando para isso recorrer aos meios técnicos e de colocação dos mesmos. Outro facto que explora esta relação temporal e de unicidade é o próprio suporte em que a obra é registada. A fotografia, por si só um meio técnico, de fixação de imagens e reprodutível.

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