terça-feira, 14 de julho de 2009

As Troianas_Reflexão

A peça

As Troianas, obra de Eurípedes, é um dos maiores clássicos da literatura da Antiguidade Clássica e um dos mais dilacerantes dramas gregos. Estreado em 415 a.C, a obra retrata o final da guerra de Tróia, depois de os gregos terem conseguido finalmente entrar na cidade com a ajuda do famoso Cavalo de Tróia, tendo como cenário a cidade, antes esplêndida e amada pelos Deuses, agora já destruída e incendiada.

A guerra de Tróia, travada entre Gregos e Troianos (que possivelmente terá acontecido entre 1300 a.C e 1200 a.C) e que terá durado dez anos, terá sido motivada, segundo Homero, pelo rapto de Helena, Rainha de Esparta, por parte de Páris ou Alexandre - como é tratado neste texto – príncipe de Tróia.

O retrato desta guerra é-nos dado no feminino, quando nos revela o terrível destino dos derrotados, focando-se sobretudo na situação das mulheres de Tróia ainda em estado de choque, principalmente nas suas personagens femininas mais importantes: Hécuba (mulher de Príamo e rainha de Troia), Cassandra (filha de Hécuba, profetiza e servidora de Apolo) e Policena (filha de Hécuba) e ainda Andrómaca (cunhada de Hécuba e mulher de Heitor, príncipe de Tróia, morto por Aquiles durante a Guerra).

Após a vitoria do exército grego, liderado por Agamenon, sobre a cidade de Tróia, todos os homens foram mortos e as mulheres serão divididas pelos Gregos.

É neste ponto que se inicia a peça “As Troianas”, onde nos é dado a conhecer o retrato de mulheres, outrora ricas e com uma posição relevante, desgastadas pela longa guerra, devastadas pelas perdas de entes queridos e pelas atrocidades cometidas pelos Gregos e principalmente angustiadas face à incerteza do seu futuro.

A personagem central, Hécuba, testemunhou o desabar a sua cidade, assistiu à morte de quase todos os seu filhos e à violenta execução do seu marido, presenciou o rapto da sua nora e da sua filha para um casamento forçado e viu ainda uma das suas filhas ser sacrificada e o seu neto assassinado.

Hécuba, que comanda o coro das mulheres de Tróia que choram e lamentam a cidade destruída, apresenta-se como uma mulher dilacerada pela dor de todos estes acontecimentos mas também como uma força interior de grande dimensão e uma clareza de pensamento fora do comum face a todos estes acontecimentos, mantendo a sua dignidade até ao fim.
A peça é escrita, a meu ver, com uma enorme sensibilidade feminina. Através do modo como Eurípedes faz “uso” da figura da mulher, dos personagens femininos e dos seus desencantos, histórias e pequenos dramas, de forma a retratar toda uma situação de guerra. Perante os factos, estas mulheres têm ainda força e vontade de viver e até alguma esperança.
O autor descreve situações de violência por parte dos vencedores da guerra, os Gregos, contra os derrotados, os Troianos, o que no seu tempo seria natural e uma prática comum. Tendo isto em conta, ainda assim, Eurípedes revela e denuncia todo um leque de actos de horror em que a crueldade e bestialidade humanas são levadas ao limite.

As Troiana dos dias de hoje

Penso que esta Obra se apresenta bastante pertinente nos dias de hoje, já que a sociedade do séc. XXI se diz cada vez mais civilizada e desenvolvida mas dá ainda espaço para que aconteçam atrocidades e guerras, não direi infundadas, mas assentes em motivos menores e interesses políticos com objectivos duvidosos.
Tal como na Guerra de Tróia os prejuízos são da ordem material mas principalmente morais, colocando as pessoas em situações de uma desumanidade em larga escala.
São frequentes as histórias que ouvimos sobre dramas pessoais e familiares, crimes hediondos que colocam o valor e a integridade do ser humano em questão, e outros factos chocantes que provêm das situações de guerra.
Um dos grandes produtos destes conflitos armados são os refugiados. Estas pessoas que se vêm lançadas em situações que não desejaram e que não controlam são submetidas a humilhações, perda de familiares e entes queridos de formas violentas e desonrosas e a danos morais muitas vezes irreparáveis.
A situação dos refugiados nas suas próprias pátrias é precárias e insegura e muitas vezes quando chegam a outros países são vítimas de preconceito e exclusão social.
Assim como na peça de Eurípides, as mulheres têm também amiúde um papel de protagonismo nestas situações, já que são os homens na maioria dos casos a assumirem posições nas batalhas. Estas são confrontadas quase sempre com situações de viuvez assumindo um papel de liderança nas famílias etc., mas ainda assim exposta a uma enorme fragilidade psicológica e física.
Desta forma faço um paralelo entre a situação dos refugiados e a condição das mulheres de Tróia, que viram todas as suas bases desmoronarem-se e que se encontram agora perdidas e deixadas à sorte do destino, temendo o inimigo.

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