terça-feira, 14 de julho de 2009

São tempos difíceis mas interessantes

"Depois desta crise com contornos de dilúvio, o que se abre à cultura? Há cenários que já podemos desenhar
Em época de crise, o melhor mesmo é ir às compras na própria casa. Desenterrem-se leituras eternamente adiadas, leia-se finalmente o "Ulisses" de James Joyce que anda por ali há séculos. Os livros podem ser caros, mas ler ainda continua a não ser assim tanto. Até porque um livro pode sempre passar por muitas mãos. E há as bibliotecas, a "forma de entretenimento mais barata de todas", lembra John Carey, professor de Inglês em Oxford, ao "Guardian". Por esta lógica, a leitura - não o mercado dos livros - será uma das actividades que menos sofrerá com a crise económica mundial. Mas nem tudo é lógico e nem tudo se pode prever. O podemos esperar, então, dos próximos anos?"

Assim começa o artigo de Joana Gorjão Henriques no Ipsilon (Dossier do Jornal Público) de 17.Abril de 2009, sobre a arte em tempos de crise. Parece-me bastante pertinente e sério!

Para quem quiser ler mais aqui fica o link:
http://ipsilon.publico.pt/artes/texto.aspx?id=228500

As Troianas_Reflexão

A peça

As Troianas, obra de Eurípedes, é um dos maiores clássicos da literatura da Antiguidade Clássica e um dos mais dilacerantes dramas gregos. Estreado em 415 a.C, a obra retrata o final da guerra de Tróia, depois de os gregos terem conseguido finalmente entrar na cidade com a ajuda do famoso Cavalo de Tróia, tendo como cenário a cidade, antes esplêndida e amada pelos Deuses, agora já destruída e incendiada.

A guerra de Tróia, travada entre Gregos e Troianos (que possivelmente terá acontecido entre 1300 a.C e 1200 a.C) e que terá durado dez anos, terá sido motivada, segundo Homero, pelo rapto de Helena, Rainha de Esparta, por parte de Páris ou Alexandre - como é tratado neste texto – príncipe de Tróia.

O retrato desta guerra é-nos dado no feminino, quando nos revela o terrível destino dos derrotados, focando-se sobretudo na situação das mulheres de Tróia ainda em estado de choque, principalmente nas suas personagens femininas mais importantes: Hécuba (mulher de Príamo e rainha de Troia), Cassandra (filha de Hécuba, profetiza e servidora de Apolo) e Policena (filha de Hécuba) e ainda Andrómaca (cunhada de Hécuba e mulher de Heitor, príncipe de Tróia, morto por Aquiles durante a Guerra).

Após a vitoria do exército grego, liderado por Agamenon, sobre a cidade de Tróia, todos os homens foram mortos e as mulheres serão divididas pelos Gregos.

É neste ponto que se inicia a peça “As Troianas”, onde nos é dado a conhecer o retrato de mulheres, outrora ricas e com uma posição relevante, desgastadas pela longa guerra, devastadas pelas perdas de entes queridos e pelas atrocidades cometidas pelos Gregos e principalmente angustiadas face à incerteza do seu futuro.

A personagem central, Hécuba, testemunhou o desabar a sua cidade, assistiu à morte de quase todos os seu filhos e à violenta execução do seu marido, presenciou o rapto da sua nora e da sua filha para um casamento forçado e viu ainda uma das suas filhas ser sacrificada e o seu neto assassinado.

Hécuba, que comanda o coro das mulheres de Tróia que choram e lamentam a cidade destruída, apresenta-se como uma mulher dilacerada pela dor de todos estes acontecimentos mas também como uma força interior de grande dimensão e uma clareza de pensamento fora do comum face a todos estes acontecimentos, mantendo a sua dignidade até ao fim.
A peça é escrita, a meu ver, com uma enorme sensibilidade feminina. Através do modo como Eurípedes faz “uso” da figura da mulher, dos personagens femininos e dos seus desencantos, histórias e pequenos dramas, de forma a retratar toda uma situação de guerra. Perante os factos, estas mulheres têm ainda força e vontade de viver e até alguma esperança.
O autor descreve situações de violência por parte dos vencedores da guerra, os Gregos, contra os derrotados, os Troianos, o que no seu tempo seria natural e uma prática comum. Tendo isto em conta, ainda assim, Eurípedes revela e denuncia todo um leque de actos de horror em que a crueldade e bestialidade humanas são levadas ao limite.

As Troiana dos dias de hoje

Penso que esta Obra se apresenta bastante pertinente nos dias de hoje, já que a sociedade do séc. XXI se diz cada vez mais civilizada e desenvolvida mas dá ainda espaço para que aconteçam atrocidades e guerras, não direi infundadas, mas assentes em motivos menores e interesses políticos com objectivos duvidosos.
Tal como na Guerra de Tróia os prejuízos são da ordem material mas principalmente morais, colocando as pessoas em situações de uma desumanidade em larga escala.
São frequentes as histórias que ouvimos sobre dramas pessoais e familiares, crimes hediondos que colocam o valor e a integridade do ser humano em questão, e outros factos chocantes que provêm das situações de guerra.
Um dos grandes produtos destes conflitos armados são os refugiados. Estas pessoas que se vêm lançadas em situações que não desejaram e que não controlam são submetidas a humilhações, perda de familiares e entes queridos de formas violentas e desonrosas e a danos morais muitas vezes irreparáveis.
A situação dos refugiados nas suas próprias pátrias é precárias e insegura e muitas vezes quando chegam a outros países são vítimas de preconceito e exclusão social.
Assim como na peça de Eurípides, as mulheres têm também amiúde um papel de protagonismo nestas situações, já que são os homens na maioria dos casos a assumirem posições nas batalhas. Estas são confrontadas quase sempre com situações de viuvez assumindo um papel de liderança nas famílias etc., mas ainda assim exposta a uma enorme fragilidade psicológica e física.
Desta forma faço um paralelo entre a situação dos refugiados e a condição das mulheres de Tróia, que viram todas as suas bases desmoronarem-se e que se encontram agora perdidas e deixadas à sorte do destino, temendo o inimigo.

História dos Espaços Cénicos_Renascimento Italiano

Até ao século XIII, durante a Idade Média a Igreja teve um papel preponderante no pensamento, no ensino e também no Teatro. Em Itália, durante o Renascimento, esta situação altera-se, e renascem algumas das ideias e pensamentos da Grécia e Roma antigas, que foram bem acolhidas e de algum modo se tornaram moda juntos dos príncipes e da corte, pelo facto de se verem rodeados de artistas, arquitectos e homens de conhecimento tão importante como eram as ideias clássicas.
Nesta época havia em Itália muitas “Academias” ou grupos de homens com interesses intelectuais ou artísticos em comum, e enquanto os espectáculos da Igreja continuavam a ser apresentados, nascia uma outra forma de teatro, apresentada por príncipes e pelas sua cortes, com o apoio e incentivo dos pensadores e homens de conhecimento. Deste modo aparece a ópera, potenciada principalmente por uma desta Academias, a Camerata, que estava mais ligada à música Grega e à sua relação com o Drama. Os diálogos eram recitados ou cantados e acompanhados musicalmente com o intuito de aumentar a carga dramática do texto. A ópera foi bem acolhida como género e teve um grande desenvolvimento até se tornar uma das maiores expressões de arte da Época Barroca. No entanto era um espectáculo para as cortes e academias, até 1637, ano em que foi inaugurado um teatro em Veneza feito pela primeira vez para o público em geral. O sucesso foi tal que entre 1640 e 1700, quatro teatros apresentaram regularmente espectáculos em Veneza, uma cidade com 14.000 habitantes. A ópera espalhou-se por toda a Europa assim como as práticas teatrais Italianas.


“Palco à Terêncio”

A apresentação de espectáculos aumentou, para além de ser considerada apropriada para qualquer celebração na corte, foi em parte motivada pelo interesse em “Da Architecttura” de Vitrúvio, o tratado greco-romano sobre arquitectura, redescoberto em 1414,. A obra de Vitrúvio tornou-se na principal referência e até mesmo regra, em todos os assuntos relacionados com a arquitectura. Os palcos e a cena não foram excepção.
No final do séc. XV, nas ilustrações feitas por Laetus das peças do escritor romano Terêncio, obviamente influenciadas pelo estudo de Vitrúvio, aparece-nos uma fachada recuada na cena, em linha recta ou em ângulo, com várias entradas com cortinas, cada uma delas a representar a casa de cada uma das personagens. Estas ilustrações foram imitadas numa edição veneziana das comédias de Terêncio e facilmente se espalharam por toda e Europa. Pensa-se que o “Palco à Terêncio” era usado em quase todos os espectáculos, embora haja quem afirme que a sua proposta nunca foi amplamente aceite.

A Descoberta Perspectiva

A descoberta da perspectiva e fascinou a mentalidade da época Renascentista. As técnicas demoraram algum tempo a desenvolverem-se mas rapidamente chegaram ao teatro, especialmente porque os cenários eram desenhados pelos pintores e arquitectos mais experientes e reconhecidos.
A sua sistematização deve-se ao arquitecto Filipo Brunelleschi a ao pintor Masaccio, mas foi Leon Battista Alberti’s que a disseminou e criou regras e direcções práticas para desenhar em perspectiva, embora o seu entendimento da matéria fosse ainda de algum modo limitado.

Sebastiano Serlio

No início do séc. XVI as práticas arquitectónicas ligadas à montagem teatral e espaços cénicos eram essencialmente baseadas na obra “Architettura” de Sebastiano Serlio (1475 – 1554). Foi a primeira obra renascentista dedicada à arquitectura, sem deixar de fora o Teatro. Assim como Vitrúvio já menciona na sua obra, Serlio assume-o como autoridade, desenha e inclui modelos de cenários para a representação de tragédias, comédias e sátiras no seu tratado. Na sua obra Serlio apresenta uma série de técnicas para aumentar e reproduzir a ilusão da distância, para isso a parte de trás do palco deveria ser inclinada de modo a que a parte posterior fosse mais elevada que a da frente. Serlio considerava os seus três modelos de cenários adequados à representação de todas as peças. Como base teriam o mesmo plano de chão e para todas eram necessários quatro conjuntos de Bastidores em ângulo, laterais, paralelamente ao público, anguladas, em progressão desde a cena baixa até à cena alta, e uma cortina de fundo. Os bastidores mais próximas do público tinham mais pormenores tridimensionais e algums tinham arcadas e galerias. Contudo Serlio não faz referência a nenhum sistema de emolduramento para os seus desenhos usados em palco, por isso provavelmente os bastidores teriam como limite as paredes do palco e para preservar a ilusão provavelmente usaria uma bambolina a delimitar a altura máxima da visão.
Em Da Architettura, Serlio, propõe que os teatros sejam instalados em edifícios já existentes, nos palácios etc. Altera a forma semicircular da sala proposta por Vitrúvio, “encaixando-a” num espaço rectangular onde os assentos se desenvolvem a partir da orquestra, numa lógica de anfiteatro. O palco é elevado de acordo com o lugar do príncipe e a perspectiva do cenário é desenhada conforme o seu ponto de vista, para que da sua cadeira tenha a vista ideal.


Palladio

Por volta de 1600 o estilo barroco começou a desenvolver-se assim como o gosto pela monumentalidade. Sequências de colunas, pórticos e outros elementos arquitectónicos eram trabalhados como partes de uma única estrutura. Tudo isto alterou grandemente a unidade, o aspecto e o tamanho da cena. Também os espaços de representação passam dos pátios e jardins para grandes salas e edifícios fechados.
O teatro mais antigo e ainda existente do Renascimento Italiano, é o Teatro Olímpico, construído entre 1580 e 1584 pela Academia Olímpica de Vicenza, para a representação de tragédias gregas, temas estudado pela Academia, que anteriormente usava palcos temporários para a apresentação das suas produções (Palco à Terêncio). O projecto do teatro foi da responsabilidade de um dos membros da academia, Andrea Palladio (1518-1580), arquitecto estudioso de Vitrúvio e das ruínas Romanas. A estrutura do teatro é idêntica aos teatros clássicos romanos, mas implantada num edifício pré-existente. A plateia em semi-círculo, o palco rectangular delimitado atrás acabando numa fachada decorada com pilares, nichos, estátuas e baixos-relevos. Cinco aberturas atravessam a fachada, uma em cada ponta e três no fundo de cena. Palladio morreu antes da construção do Teatro ter sido terminada e a obra foi finalizada pelo seu filho e por Vincenzo Scamozzi (1552-1616) que lhe adicionou (como parece ter sido intenção de Palladio) cinco ruas em cena que desembocavam no palco através de cinco aberturas, e que no fundo tinham telas pintadas em perspectiva de modo a parecerem desaparecer na distância. Assim conseguiam dar a impressão de que o palco era uma praça pública onde essas ruas desembocavam. Cada espectador conseguia ver pelo menos uma dessas ruas. Contudo, depois de ser usado para a apresentação de algumas produções, foi praticamente abandonado.
A obra de Palladio parece ter servido de inspiração a Scamozzi, para a construção em 1588 de um teatro mais pequeno em Sabbioneta. O teatro foi pensado e construído como uma só unidade, contudo o interior seguia ainda o plano de Serlio. A plateia em forma semi-circular de frente para o palco ainda sem arco do proscénio, no qual os bastidores angulados serviam para delimitar a cena. É uma construção importante, se o virmos como um teatro Renascentista ainda existente e uma prova do desenvolvimento arquitectónico e teatral da época, embora cedo tenha sido desactivado.

Aleotti e o Teatro Farnese

Pensa-se que o protótipo de palco moderno como o conhecemos hoje, seja o do Teatro Farnese em Parma, desenhado por Aleotti inaugurado em 1628. É o teatro mais antigo que tem como parte integrante do edifício um arco do proscénio permanente e que serviu de modelo para todos os outros teatros construídos nos 300 anos que lhe procederam. O arco do proscénio tinha como função esconder os mecanismos para as mudanças de cena e desta forma aumentar a ilusão para o público, o que constituiu um ímpeto para a produção de um teatro mais realista. A plateia construída em forma de “U” em anfiteatro em volta de uma ampla área aberta, que podia ser usada para bailes ou inundada de água para espectáculos aquáticos.

Os Teatros Públicos

No início do séc. XVII muitos teatros públicos foram construídos, embora nenhum fosse muito elaborado. As inovações arquitectónicas e mecânicas só apareceram quando a Ópera começou a ser apresentada profissionalmente em 1637.
Veneza era o lugar ideal para os teatros públicos se desenvolverem. O acesso a todas as classes era permitido e o recato também para aqueles que o desejassem.
Os únicos planos ainda existentes de Teatros à Italiana do séc. XVII em Veneza são os construídos para os Teatros S. Giovanni e S. Paolo, em 1639. Têm cinco balcões cada um com vinte e nove camarotes. Os primeiros dois níveis eram destinados, os mais caros, eram para as classes mais altas. Os três níveis de cima eram usados para pessoas com menos posses e posição social mais baixa. A área aberta no piso térreo era para o povo. A construção em vários níveis (balcões) permitia não só a presença de mais pessoas, como a diferenciação de classes, e a divisão em camarotes dava a oportunidade a agrupamento de várias pessoas ou famílias de assistirem ao espectáculo, sem terem de se misturar com o resto do público.